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Seis do Seis
Artistas
Jean Smekatz & Michel Scherer
Curadoria
Débora Bolzsoni
Data
06 de Junho a 1 de agosto de 2026
Arena e Vereda
Corpo a cor, flor a chama
por Débora Bolzsoni
Seis do seis coloca em pé de diálogo dois conjuntos de obras claramente distintas. Estamos diante da produção de dois artistas cujo forte vínculo de amizade também se dá no fazer de ateliê. No entanto, por mais troca que exerçam na cozinha da pintura, as imagens que Jean Smekatz e Michel Scherer devolvem ao mundo são tão incrivelmente próprias que, sendo esta mostra uma espécie de retrato desta parceria, o mais honesto seria apresentá-los como mundos paralelos que são. Apostando no pareamento pela diferença não como forma de oposição, mas porque a proximidade de suas obras reforça a identidade delas.
Já no contexto do conjunto que Jean Smekatz, nos apresenta, o que acontece é bem diferente. É justamente de jogos entre oposições que o pintor constrói sua arena. Em sua obra o antagonismo entre duas forças é o tônus da imagem. A presença igualmente ativa de duas naturezas contrárias são trazidas para um campo de embate, a pintura. O trabalho de Smekatz parece se balizar pelo gesto de mediar o conflito entre as oposições que elege, ele trabalha sobre a tela de modo que a cor e sua ausência1; o gesto e a matéria; o primeiro e o segundo plano; a abstração e a representação; ou ainda, pensando em obras mais antigas, o sagrado e o profano, se apresentem como “valores” equivalentes.
1 Aqui considerando o branco como não cor, tradicional discussão entre a cor física e a cor ótica- quando o branco é a soma de todas as outras cores.
A obra que desvia deste jogo dual é a tela intitulada “Praia” (propositadamente deslocada da sala principal para a copa). Justo quando temos um terceiro valor agindo, no caso a grande área em meio tom de azul, uma espacialidade assumidamente aparece. É curioso que em conversa com o artista, sua dúvida sobre este trabalho era em torno do título: oceano ou praia – de todo modo, um lugar para além da própria tela. Algo radicalmente distinto da série “Do corpo a cor” (2025), que parece dar o tom predominante ao restante da exposição.
As duas telas monocromáticas brancas oferecem uma relativização entre um procedimento e outro, ali o referente está também na construção de uma paisagem, mas não tão distante do gesto, do embate, das oposições. O fato de termos uma só cor, lança a dualidade de forças para um outro campo entre a figura e a abstração.
Michel Scherer caminha por outras veredas, que se bifurcam sem cessar e ao mesmo tempo reafirmam um mesmo lugar: o do drama, ou do trágico. Talvez este seja um interesse que aproxime os dois artistas da mostra (embora para Smekatz o drama/trágico não precise ser nomeado, basta que se manifeste no corpo).
Em nossas conversas sobre a sua série “Flores para casas em chamas” (2025-2026), Scherer considera importante tratar do prazer que ele quer proporcionar ao nosso olhar. A sensualidade como suas tintas se mesclam seria talvez o recurso mais evidente. Mas é preciso pontuar que suas “Flores” não são um elogio ao prazer, ao deleite simplesmente. Poderia dizer que, como é comum às naturezas-mortas, elas são um convite para pensar na brevidade da vida. Ainda que a flor seja o órgão sexual daplantaeseuclímaxdevida,estasfloresagigantadas,“carnudas”, “terrosas”,estão
em casas em chamas... o erotismo que nos envolve parece primo àquele de
quando « Chegado é o tempo em que/ Vibrando o caule virgem/ Cada flor se
evapora igual a um incensório/ Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo/ Melancólica valsa e lânguida vertigem. »2
Scherer traz para a cena sua relação animista com o mundo. A ação segue em curso narrativo porque suas flores seguem murchando pelas tintas escorridas, seus planetas orbitam no vazio das tampas de latas de tinta, o pássaro se ergue de onde um outro está no ovo, por nascer. É trágico não no sentido de um final infeliz, mas porque articula vida e morte nos mesmos elementos, a flor, a chama, o ovo.
1 Aqui considerando o branco como não cor, tradicional discussão entre a cor física e a cor ótica- quando o branco é a soma de todas as outras cores.
2 Do poema “harmonia da tarde” in Flores do Mal (1857), Charles Baudelaire.
Fotografia Ana Pigosso






































