Entrevista com Michel Scherer
- Rafaela Mazzaro

- 24 de jun.
- 3 min de leitura
Primeiro artista convidado do projeto independente Cedroo, Michel Scherer tem suas obras colocadas em diálogo com as de Jean Smekatz na exposição “Seis do Seis”. Nesta entrevista, ele trata da relação de amizade com o idealizador da iniciativa e de sua produção atual que poderá ser visitada até o dia 1º de agosto.

Esta é a primeira exposição em parceria com Smekatz? Você poderia falar um pouco sobre essa relação de amizade que se estendeu ao campo das artes?
Scherer - Sim, esta é a nossa primeira exposição juntos. A minha amizade com o Jean se deu no campo das artes, em especial da pintura. Nos encontramos no curso Pintura Prática e Reflexão, ministrado por Paulo Pasta, e, a partir daí, fomos descobrindo uma série de afinidades. Além do interesse comum pela pintura, percebemos que compartilhamos uma mesma geografia afetiva: ambos vivemos no centro histórico de São Paulo, em vias que se cruzam e que carregam marcas da transformação urbana da cidade. Ao longo do tempo, passamos a acompanhar os processos um do outro, trocando referências, conversas e impressões sobre o fazer artístico. Embora esta seja a nossa primeira exposição em conjunto, nossos trabalhos já haviam sido colocados em diálogo em contextos de estudo. Nesse sentido, esta mostra surge como um desdobramento natural de uma amizade construída pela observação, pela escuta e pelo interesse mútuo na pintura.
As obras selecionadas pela curadora Débora Bolzsoni representam sua produção mais recente? O que esse recorte revela sobre o momento atual de sua pesquisa e produção artística?
Scherer - Sim, elas fazem parte da minha produção mais recente e refletem um momento de aprofundamento em questões que vêm atravessando minha pesquisa nos últimos anos. Tenho me interessado cada vez mais pela pintura como um espaço de encontro entre observação e memória, entre experiência direta e elaboração poética. Nesse conjunto de trabalhos, aparecem temas recorrentes na minha produção, como a paisagem urbana, a transitoriedade das coisas e a tentativa de construir imagens que operem mais pela sugestão do que pela descrição. Também é um momento em que venho buscando maior síntese formal, permitindo que a pintura se sustente por relações de cor, ritmo e presença material. O recorte realizado por Débora evidencia essas preocupações e, ao mesmo tempo, revela como diferentes trabalhos podem formar uma constelação de sentidos quando observados em conjunto.
Você acredita que ter seu trabalho apresentado em diálogo direto com o de outro artista produz uma experiência diferente daquela de uma exposição coletiva, por exemplo? De que forma?
Scherer - Acredito que sim. Em uma exposição coletiva, as relações entre as obras costumam se multiplicar em diversas direções, criando um campo mais amplo de leituras. Já em uma exposição construída a partir do diálogo entre dois artistas, a relação tende a ser mais concentrada e intensa. Nesse formato, as aproximações e diferenças ficam mais evidentes. O espectador é convidado a perceber como determinados temas, procedimentos ou sensibilidades aparecem de maneiras distintas em cada trajetória. Ao mesmo tempo, surgem correspondências inesperadas, que muitas vezes nem os próprios artistas haviam identificado. No caso desta exposição, me interessa especialmente perceber como duas pesquisas autônomas, desenvolvidas de forma independente, podem compartilhar inquietações semelhantes. O diálogo não acontece pela busca de semelhanças, mas pela possibilidade de criar um espaço de convivência entre modos distintos de olhar e construir imagens.
Entrevista realizada pela jornalista Rafaela Mazzaro para o Cedroo. Junho de 2026
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